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Não há política incolor / (Cid Pacheco, 1993)

Collor, em1992, fez um apelo ao povo para que fosse às ruas trajando algo verde-e-amarelo, em sinal de apoio ao seu governo, em reação contra o negro proposto pela Oposição – a não-cor que as pessoas preferiram, por fim, para manifestar-se na praça pública e contribuir assim para o “impeachment”. Foi mais um (informal) plebiscito-pela-cor, dos vários que o povo brasieliro já protagnoizou, na sua História política. (Este fato sugeriu ao Autor, o presente texto, de 1993)
O verde-e-amarrelo não tem tradição histórica de ferocidade política. As conotações psicodinâmicas dessa dupla coloração não se referem à agressividade, ao ardor, à paixão.
O verde é virgílico, bucólico, pacifista. Tanto, que é a cor moderna da Ecologia, a qual, mesmo na sua expressão mais agressiva, procurou atenuá-la, juntando verde-e-paz, ao menos no nome: o movimento Greenpeace.
Sim, o verde foi a cor do Islam expansionista. Mas aí o simbolismo é uma transferência. Verde é a cor do paraíso para um povo do deserto, cujo habitat tem a cor neutra mas ofuscante da areia reverberando o sol implacável. O étimo paraíso vem do persa “pairideza”; pomar, jardim real, campo verde – o oásis eterno para onde vão os bravos guerreiros tombados na “djihâd”: para maior glória de Allah e seu Profeta.
O amarelo – a cor pontifícia – é sabia e nobre. E rica. Afinal, é a cor do ouro.
A casa de Orleans e Bragança – cuja nobreza não se marcou, decerto, por aguerrida – deu suas cores, o verde-e-amarelo, ao Brasil, mais tarde nacionalizadas, numa racionalização tão feliz quanto conveniente: o verde das nossas matas, o ouro das minas gerais – auriverde pendão da esperança etc.
O azul é acréscimo, posterior, com que a República marcou o seu Positivismo (reforçado pelo mote “Ordem e Progresso”), em sábia gradação conciliadora, respeitando a afetividade popular pela Monarquia, de memória histórica bicolor.
Concluindo: em termos psicodinâmicos, o verde-e-amarelo (como, talvez, diria Bobbio) é uma “cor” politicamente “fraca”.
“Forte” é o vermelho – ígneo e sanguíneo – a cor política por excelência. Ao longo da História ela sempre serviu à paixão, à fúria das revoluções e aos protestos irados, desde os tempos clássicos, até o PT de hoje. Vermelhos foram os lenços revolucionários gaúchos de 30.
Do vermelho apropriou-se o imperialismo russo para, durante setenta anos, usá-lo como a cor da sua ideologia instrumental, o Comunismo: a foice-e-martelo de ouro sobre um intenso campo de sangue.
O vermelho arde de vida antes de enegrecer-se de morte. Por isso, talvez, a combinação politicamente clássica, sobre todas, é a do vermelho-e-negro. Rubro-negras têm sido muitas das bandeiras que mesmerizaram as multidões, desde os populismos primevos até a catarse do brasileiríssimo “Mengo!”.
Hitler, confrontando seus próprios esboços com os do anônimo “dentista de Stenberg”, decidiu-se pela cruz gamada negra, em círculo branco, sobre campo vermelho – capitalizando, assim, as conotações históricas das cores imperiais da Alemanha.
Outra associação clássica do vermelho – esta, positiva, porque conotada à liberdade e à democracia – é com o azul – e o branco da paz. A tradição azul/vermelha da “Union Jack” da nacionalidade britânica, berço do estado democrático-constitucional ocidental moderno – filho legítimo da “Revolução Gloriosa” de 1688 – vai ser reiterada, quase um século depois, em 1776, na “stars and stripes” da Revolução Americana que, logo a seguir, vai inspirar o vibrante estandarte “bleu-blanc-rouge”, desfraldado na Revolução Francesa de 1789.
Associando-se ao ouro, o vermelho vibra de intensidade hispância: sangre y oro! Olé!
Em Portugal, o vermelho atenua sua paixão associando-se à conotação paradisíaca do verde, resquício da longa dominação muçulmana da Península.
No Brasil, povo eminentemente retórico, o vermelho português logo desaparece como cor e vai subsistir apenas como palavra, “fraca” evocação vocabular do pau cor de brasa, sua riqueza primeira.
O vermelho – puro e intenso – parece ser forte demais para o gosto da alma brasileira. Não por acaso a gloriosa Mangueira optou por atenuá-la, num sutil cor-de-rosa denso, tão harmoniosamente casado ao verde.
Os últimos anos trazem uma constatação animadora e feliz: os brasileiros manifestam cada vez mais o seu patriotismo através do uso – já agora quase contido – da sua própria bandeira, e sempre nos momentos celebratórios de júbilo de vitória. Que o digam as “torcidas” de nossa Seleção e o extraordinário fenômeno Ayrton Senna.
A esperança do Verde e o orgulho do Ouro são uma combinação premonitória de uma grandeza que parece começar a ser, tardia embora, uma nascente aspiração nacional, agora popular.
Esperançoso é também o fato – largamente constatado pela pesquisa sociológica mais moderna, no Brasil – de que o povo (estatísticamente falando) considera o uso eleitoral da “sua cor” – o verde-e-amarelo – pelos políticos, como uma conspurcação. É como se ela fosse “pura demais para isso…”.
Como se vê, a propalada índole pacífica do “homem cordial” brasileiro reflete-se em nossas cores oficiais.
Já houve quem me cobrasse justificativas psicodinâmicas para certas cores inconspícuas, de nossas instituições militares: o verde-oliva do Exército, o cinza da Marinha, o azulado da Aeronáutica. Lembro que, nestes casos, não ocorreu inteção política na origem. Trata-se apenas de associações que o tempo elaborou naturalmente, a partir das funções de mimetismo que determinaram as cores dos uniformes operacionais. As conotações político-ideológicas de tais cores neutras se deram a posteriori e não intencionalmente.
As Forças Armadas são instituições de natureza extra-política (embora, muitas vezes, como políticas se comportem) e seu símbolo psicodinâmico atuante de fato é comum às três: a Bandeira Nacional. Verde-oliva é mais palavra do que cor. Vale mais escrita do que vista.
O importante, a rigor, não é a cor em si, mas a sua ação mágica sobre a psique do Homem, acima de qualquer lógica ou explicação.
Nação, província, partido, facção, clube, escola-de-samba, “tribos” como quer que os seres humanos se congreguem para a ação coletiva de expressão pública, é instintiva, imperiosa, inevitável, a adoção da Cor como elemento agregador da Idéia – elemento profundo porque irracional e, por isso mesmo, transcendente.
Não há política incolor!
Referência
PACHECO, Cid.
Não há política incolor: breve ensaio sobre psicodinâmica da cor na política.
Rio de Janeiro: NUMARK/ECO/UFRJ/Instituto CPMS de Comunicação, 1993.

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