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Bakhtin e globalização: notas de aula (Marcelo Serpa, 2007)

Bakhtin e Globalização / Notas de aula – 2007

Os efeitos da demografia e da democracia sobre os conceitos de carnavalização e de grotesco nas novas sociedades de massa contemporâneas e já em globalização intensiva.

Recente releitura e reflexão sobre o texto (título) de Bakhtin, suscitou-nos uma nova ótica sobre as questões levantadas pelo seu autor, e que tanto interesse despertarem e tanta discussão vem prevalecendo e mantendo desde os meados do século XX.

Estamos falando, basicamente, dos seus conceitos específicos de carnavalização e de grotesco, que ocupam um lugar relevante no pensamento contemporâneo.

Ambos os conceitos já têm sido tratados, tão intensa e extensamente, e por tantos autores, que se torna dispensável reiterá-los aqui.

Nosso intuito nessa pretendida “nova perspectiva” sugerida na abertura deste texto parte de um olhar, não sobre o passado das idéias bakhtinianas, mas agora sob o seu futuro.

Para onde irão elas doravante? Que novos aspectos, mudanças, evoluções poderiam elas assumir – se é que ocorrerão?

Mas, preliminarmente, por que nos ocorreu tal interesse e modo de repensar-las?

Carnavalização e grotesco tem um passado cuja origem Bakhtin traçou a partir da antiguidade, cuja expressão maior situou na idade media e que os vinculou fortemente aos textos rabelasianos do Século XVI.

Com os pés no hoje, ao olharmos para o ontem, percebemos (como que “descobrimos”) que o tempo nos apresenta, hoje, um quadro social tão profundamente diferente daquele que nos impõe a obrigação de repensar a própria essência desses dois conceitos para melhor atualizá-los.

Em que consistiria tal diferença? O que mudou? E mudou tanto? Ou quanto?

A mudança principal diz respeito aos aspectos quantitativos: especificamente, a demografia.

A carnavalização daquelas pequenas populações clássicas e medievais – quase insignificantes face às grandezas das massas contemporâneas – continua a ter o mesmo valor, significação e atuação?

Contudo, ao lado da demografia, nota-se outra mudança, esta qualitativa: a democracia.

Note-se que a carnavalização bakhtiniana “clássica”, refere-se a sociedades (notadamente a medieval), de natureza feudal e essência autoritária e formato aristocrático.

Repita-se a pergunta num contexto político: a carnavalização, dentro das pequenas sociedades autoritárias que Bakhtin escolheu como cenário para suas reflexões, terá hoje o mesmo valor, significação, atuação e efeito para as macro-democracias massivas da atualidade?

Obviamente, para Bakhtin, seus dois conceitos já se enquadravam numa percepção perpassada pela consciência de classes sociais e, mesmo, de luta de classes. Afinal, o pensamento de Bakhtin  situa-se numa weltshaung inevitavelmente marxista, inclusive por imposição geográfica e temporal: de nacionalidade russa e contemporânea de sistema soviético.

Portanto, a carnavalização e o grotesco são conceitos extensivos à percepção política antropológica e sociológica de um certo tempo histórico, datado.

Ora, demograficamente, o mundo atual não guarda nenhuma similitude significativa com as demografias clássicas, medievais – e até mesmo com as do Século XIX.

Outrossim, politicamente, as macro-democracias de massa contemporâneas não guardam nenhuma similitude significativa com as democracias clássicas (especialmente as gregas e a romana) e menos ainda com os feudalismos ou absolutismos posteriores aos Séculos XIV e XV, e a exacerbação dos totalitarismos do Século XX, sem falar dos imperialismos dos Séculos XVI a XIX.

Por isso, nessa percepção requer uma revisão dos conceitos bakhtinianos para sua atualização à modernidade corrente e viva.

E, aí, esse presente suscita um futuro – tão inevitável quanto o passado: o que vem pela frente?

Aí estão, por exemplo, os “novos gigantes”: China, Índia e Brasil? Carnavalização e grotesco nessas novas sociedades de massa guardarão ainda afinidades, semelhanças ou equivalências com as “do tempo de Bakhtin”.

E se falamos em futuro, aí não mais para parar…

Estamos falando de perspectivas emergentes que já preocupam tantos pensadores, desenhando-se no horizonte dos novos “capitalismos autoritários” de que a China já é o paradigma reconhecido. Vale a pena mencionar Gatlzar em artigo notável em Foreign Affairs número 84 – julho-agosto 2007.

Na revolução demográfica – já em plena explosão – surge a revolução autoritária inesperadamente capitalista.

É tempo de parar e repensar Bakhtin, sua carnavalização, seu grotesco etc. De fato, não apenas repensá-lo e – por que não – revisá-lo.

Revisá-lo sim, pois afinal o fator macro-demográfico desnuda – ou amplia (?) – aquele que parece ser o ponto mais discutível do ideário baktiniano: o próprio conceito grotesco.

Desde o princípio, esse conceito de grotesco sempre pareceu tingido por uma incomoda coloração de elitismo estético, de uma indisfarçável subjetividade estritamente pessoal.

De fato, grotesco seria mera questão de gosto pessoal. Grotesco seria, então, um “gosto do povo” e, por isso, preconceituosamente, um gosto esteticamente inferior, próprio de gente rude e pouco cultivado, e portanto, desconsiderado por pessoas de “fino trato”.

Esta posição viria a reforçar a suspeita de que, Bakhtin, simplesmente não entendeu as estéticas populares autenticas, e por isso optou por designar-las por uma palavra etimologicamente preconceituosa: algo grosseiro, próprio das grotas, grutas, grotões.

Em suma, das cavernas ancestrais que precederam a casa, pré civilizatórias portanto, de quando o ser humano ainda era mais bicho do que gente.

Sob tal ponto de vista, Bakhtin, simplesmente, teria sido um intelectual que não compreendeu, em tempo, os novos valores e características das novas culturas de massa, ainda emergentes nas décadas em que ele viveu e pensou.

As novas realidades demográficas, políticas, culturais, comportamentais, dessas novas sociedades hiper populosas, teriam escapado à percepção de Bakhtin, o que faria dele, então, apenas um pensador desatualizado e o grotesco um conceito “démodé”, passado de moda.

De fato, a massificação da cultura popular, por via da massificação da mídia, consagrou uma nova estética de massa, de resto, nada tão novo que já não tivesse sido percebido precocemente por Tarde, Ortega e Gasset, e outros prenunciadores das “rebeliões das massas”.

O cinema, logo depois a televisão, consolidaram a difusão, a aceitação generalizadas – e mesmo a imposição midiática – dessas novas estéticas populares que tornaram a palavra grotesco, agora, não apenas imprópria, mas injusta: a nova estética não deixava de ser estética, por ser popular, simplória e simplista, mas visceralmente democrática, porque autenticamente originária do “demos”, e não das elites.

Isso faria de Bakhtin, apenas, um comunista defasado, que a China contemporânea teria feito irremediavelmente ultrapassado, ideológica, política e conceitualmente.

Quanto à carnavalização, esse passou a ser o mais marcante atributo essencial das sociedades de massa contemporâneas. A prioridade pelo prazer e conseqüente consagração do entretenimento como busca e preferência centrais do viver contemporâneo, são hoje o eixo definidor das macro-culturas populares deste século XXI que ora se inicia.

Tal forma de ver e de pensar a contemporaneidade massificada, faz de autores como Neal Gabler arautos populares do novo presente.

Arte SERPA, Marcelo H. N. Propaganda e interdisciplinaridade. V. Pós defesa. Rio de Janeiro: UFRJ, 2001. 179 p. Dissertação (Mestrado) ANEXO 2
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