EnglishPortugueseSpanish

Opinião (Marcelo Serpa, 2011)

VERBETE
OPINIÃO
ABBAGNANO, Nicola. São Paulo, Martins Fontes, 1998.

OPINIÃO
(lat. Opinio, in. Opinion, fr. Opinion; al. Meinung, it. Opinione).

(Opinione).

Este termo tem dois significados; o primeiro, mais comum e restrito, designa qualquer conhecimento (ou crença) que não inclua garantia alguma da própria validade; no segundo, designa genericamente qualquer asserção ou declaração, conhecimento ou crença, que inclua ou não uma garantia da própria validade.

Este segundo significado é mais usado do que explicitamente definido.

No primeiro significado, O. contrapõe-se à ciência (v.). O primeiro significado já se encontra em Parmênides, que contrapõe “as opiniões dos mortais” à verdade (Fr., l. 29-30), mas ambos os significados já se encontram em Platão. Este, por um lado, considera a O. como algo intermediário entre o conhecimento e a ignorância (Rep., 478 c), incluindo nela a esfera do conhecimento sensível (conjetura e conca) (Ibid, VI, 510 a); deste ponto de vista, afirma que nem a O. verdadeira fica imóvel na alma, “até se ligar a um raciocínio causal” e tomar-se ciência (Mm., 98 a; cf. Fti., 99 a).

Por outro lado considera a O. como a conversa que a alma tem consigo mesma, em que consiste o pensamento (Teet., 190 ac); neste sentido a própria ciência nada mais é que uma espécie de opinião.

Os dois significadoa também se encontram em Aristóteles, que por um lado afirma, como Platão, que, ao contrario da demonstração e da definição, as O. estão sujeitas a mudar e portanto não constituem ciência (Met., VII, 15, 1039 b 31); por outro lado declara: “Por princípio entendo as O. comuns nas quais todos os homens baseiam suas demonstrações; p. ex.: que uma asserção deve ser afirmativa ou negativa, que nada pode simultaneamente ser e não ser, etc.” (Ibid., Ill, 2, 996 b 27).

Na tradição posterior, o significado genérico perdeu-se, permanecendo o outro. Os estóicos definiram a O. como “assentimento fraco e ilusório” (SEXTO EMPÍRICO. Adv. math., VIl. 151; cf. CÍCEHO, Tusc., IV, 7. 15). e, no mesmo sentido, Epicuro chamou de O. “uma assunção que pode ser verdadeira ou falsa” (DIÒG. L, X, 33).

Com outras palavras, S. Tomás de Aquino expressava a mesma coisa: “A O. é o ato do intelecto que se dirige para um lado da contradição por medo do outro” (S. Th.. l. q.79, a.9).

Woltf chamava de O. “a proposição insuficientemente provada” Log., $ 602), e Spinoza identificava a O. com o conhecimento do primeiro genero, que é o menos elevado e seguro e provém de signos (Et., II. 40, Scol. II).

Da mesma forma Kant diz: “A O. é uma crença insuficiente tanto subjetiva quanto objetivamente, de que se está cônscio”. Estar cônscio consiste em “não poder presumir opinar sem pelo menos saber algo por meio do qual o juízo problemático tenha certa conexão com a verdade”; de outro modo “tudo não passa de jogo da imaginação, sem a menor relação com a verdade” (Crít. R. Pura, Doutr. do Método, cap,2, seç. 3). Kant afirmava também (loc. cit.) que “nos juízos que derivam da razão pura não é absolutamente permitido opinar”, e que, portanto, não se pode opinar nem no domínio da matemática nem no domínio moral.

Mas Hegel negava que houvesse opiniões, mesmo no domínio da filosofia: “Uma O. é uma representação subjetiva, um pensamento casual, uma Imaginação que crio desta ou daquela maneira e que outro pode criar de modo diferente; a O. é um pensamento meu, não um pensamento em si universal, que seja em si e por si. Mas a filosofia não contém opiniões, já que não existem opiniões filosóficas” (Geschichte der Philosophie, em Werk, ed. Glockner, XVII. p. 40; trad. it., vol. I. p. 21). Este ponto de vista foi compartilhado, e ainda é, por todas as filosofias absolutistas; na realidade, é o ponto de vista da metafísica tradicional.

O ponto de vista expresso por Kant, a respeito da impossibilidade de opiniões em campo científico, foi compartilhado pela ciência positivista do séc. XIX. Mas o falibilismo que prevalece hoje, tanto em ciência como em filosofia, torna-nos menos desdenhosos e depreciativos em relação à O.

Por um lado, não se concedera que a O. seja tão pessoal ou incomunicável quanto afirmara Hegel. Uma O. cientifica ou filosófica pode ser compartilhada por muitos, precisamente como O., sem o disfarce ilusório ou sub-reptício de verdade, ainda que represente em determinada fase da ínvestigaçao a hipótese mais racional ou a teoria mais apoiada pelos fatos.

Dewey diz: “Na solução de problemas que pretendem menor exatidão que os cacos jurídicos, os juízos são chamados de O., para distingui-los dos juízos ou asserções justificadas. Porém, se a O. professada tem fundamento, é produto da investigação e, em tal medida, é um juízo” (Logic, 1939. Vil; trad., it., p. 179).

Por outro lado, mesmo as hipóteses ou teorias mais consolidadas apresentam certa amplitude de interpretações possíveis, que deixa grande margem à diversidade de O.

Finalmente a repugnância compartilhada (e com boas razões) por cientistas e filósofos a considerar a verdade cientifica ou filosófica como absoluta e necessária, diminui a diferença entre a verdade e a O.. entre a O. e a ciência.

O conceito de O. hoje não é diferente da definição dos antigos: compromisso frágil e. sujeito a revisão, ausência de garantia de validade constituem hoje também as características da O., mas seu campo estendeu-se muito mais do que os antigos imaginariam ou do que imaginaram e imaginam os filósofos absolutistas; acima de tudo, perdeu-se nitidez dos limites entre ciência e O.. visto não haver lugar ou região da ciência entre O. e verdade.

./.

Increva-se

Pesquisa

Professor Marcelo Serpa
Escola de Comunicação da UFRJ
Campus Praia Vermelha
Palácio Universitário

Tel.: +55 21 98275-5555
E-Mail: marcelo.serpa@eco.ufrj.br
                        serpa.br@gmail.com

Como chegar à

© 1997-2020 Marcelo Serpa - MS Comunicação. Todos os direitos reservados

Developed by D4W