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Querer “para trás”. BAHI, Vera. 2013.

Vera-Bahi-Close-2014-copiaMarcelo,
Eis o trecho de Nietzsche que mencionei a você.
Encontra-se no Zaratustra que é uma obra difícil, por ser toda ficção e emblemática, mas se ler com atenção, repetidas vezes, entenderá toda a beleza e a magnitude que há em “transmutar” a vida:
– “Homem, torna-te quem tu és”.
Eis minhas humildes considerações deste trecho que ensina a mudar e transformar até mesmo o passado: se não o tentarmos, não vale a pena ser homem.
Pela vontade fazer do que aconteceu que não passou de mero acidente, transmutar na nossa mente – de pedra irrepreensível em obra de nossa vontade soberana. Isto é o “querer para trás” : fiz o melhor e assim o escolhi. Em vez de castigo, recompensa, e tirar a loucura da “culpa” que nos foi inoculada, e mudá-la para obra de nossa vontade soberana. Vamos transformar todo o “foi” em “assim o quis” e obra de nossa vontade soberana.
Este livro é repleto destas “pérolas de saber”.
Espero que encontre outras e as desfrute.
Beijos,
Vera.
In:
NIETZCHE, Friederich Wilhelm. Assim falava Zaratuscra: livro pra toda gente e pra ninguém. Rio de Janeiro: Saraiva (de bolso), 2012. 341 p. Págs. 146-148.
E como havia eu de suportar ser homem se o homem não fosse também poeta adivinho de enigmas e redentor do azar?!
Redimir os passados e transformar tudo, “foi” num “assim o quis”: só isto é redenção para mim.
Vontade! – assim se chama o libertador e o mensageiro da alegria: – eis o que vos ensino, meus amigos; mas aprendei também isto: a própria vontade é ainda escrava.O querer liberta; mas como se chama o que aprisiona o libertador?
“Assim foi”: eis como se chama o ranger de dentes e a mais solitária aflição da vontade. Impotente contra o fato, a vontade é para todo o passado um malévolo espectador.
A vontade não pode querer para trás. Não pode aniquilar o tempo e o desejo do tempo é a sua mais solitária aflição.
O querer liberta: que há de imaginar o próprio querer para se livrar da sua aflição e zombar do seu cárcere?
Ai! Todo o preso enlouquece! Também loucamente se liberta a vontade cativa.
A sua raiva concentrada é o tempo não retroceder; “o que foi”; assim se chama a pedra que a vontade não pode remover.
E por isso, por despeito e raiva, remove pedras e vinga-se do que não sente como ela raiva e despeito.
Assim a vontade, a libertadora, tornou-se maléfica; e vinga-se em tudo que é capaz de sofrer, de não poder voltar a trás.
Isto, e só isto, é a vingança em si mesma, a repulsão da vontade contra o tempo e o seu “foi”.
[…] E como naquele que quer há sofrimento, posto que não é permitido querer para trás, a própria vontade e toda a vida deviam ser castigo.
E assim se acumulou no espírito uma nuvem após outra até que a loucura proclamou: “Tudo passa; por conseguinte tudo merece passar”.
“E aquela lei que diz que o tempo deve devorar os seus próprios filhos, é a mesma justiça”. Assim se proclamou a loucura.
[…] “Como pode haver redenção, se há um direito terno? Ai! Não se pode remover a pedra do passado: é mister que todos os castigos sejam também eternos!”Assim se proclamou a loucura.
“Nenhum fato pode ser destruído: como poderia ser desfeito pelo castigo?” Eis o que há de eterno no castigo da existência: a existência deve ser uma vez e outra, eternamente, ação e dívida. “A não ser que a liberdade acabe por se libertar a si mesma, e que o querer se mude em não querer.
[…] Todo o “foi”é fragmento e enigma e espantoso azar, até que a vontade criadora acrescente: “Mas eu assim o quero! Assim o hei de querer”.
Já falou, porém, assim? E quando sucederá isso? Acaso a vontade se livrou da sua própria loucura?
Porventura se tornou a vontade para si mesma redentora e mensageira de alegria? Acaso esqueceu o espírito de vingança e todo o ranger dos dentes?
Então quem lhe ensinou a reconciliação com o tempo e qualquer coisa mais alta que a reconciliação?
É preciso que a vontade, que é vontade de Jeronimo, queira qualquer coisa mais alta que a reconciliação; mas como? Quem a ensinará também a retroceder?

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