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Espetáculo e a fabricação do voto (Marcelo Serpa, 2012)

ESPETÁCULO E A FABRICAÇÃO DO VOTO:
a relação entre a opinião (pessoal e pública) e o comportamento eleitoral. (1)
Marcelo Serpa, D.Sc (Comunicação e Cultura, UFRJ) (2)

“Espetáculo e a fabricação do voto” investiga a importância do espetáculo no comportamento eleitoral, hoje. A partir da análise dos graus do conhecimento e dos modos de assentimento dos clássicos, discute os conceitos de valores, esquemas, atitudes e opiniões – suas origens e propagação, do enfrentamento da indiferença à formação da opinião pública. Examina, ainda, o homem na determinação do comportamento do outro, seu posicionamento como ser social e descortina a espetacularização dos discursos eleitorais contemporâneos na América Latina.

Antes mesmo de se abordar conceitos políticos apresenta-se um espaço para o questionamento sobre o comportamento eleitoral, uma vez que as pessoas têm experiências diferentes em suas relações com a política e eleição. Tanto que, alguns se tornam membros ou gestores de partidos políticos, difundindo informação, mobilizando outras pessoas para causas políticas e dedicando parte das suas vidas a essa participação política; enquanto outros somente dedicam interesse esporádico às coisas da política, quando votam ou apoiam ou subscrevem listas de alguns dos muitos movimentos que circulam por aí, inclusive, pela internet e redes sociais digitais; e outros vivem à margem da política, ocupados com seus assuntos pessoais, dedicando-se às suas carreiras, famílias e amigos.

Opinião e comportamento eleitoral.

O comportamento político, e em especial o eleitoral, implica fundamentalmente em fazerem-se escolhas. E estas escolhas levam em conta preferências, atitudes e opiniões individuais e de grupo. No âmbito eleitoral, a chamada opinião pública. A Grécia clássica admitia distintos graus do saber quando designava por pístis a crença ou fé, alógica e metafísica, de caráter estrutural, estável, duradouro e constante; por doxa a opinião, ilógica ou paralógica, de caráter conjuntural, instável, efêmero e variável; e por episteme a ciência, somente esta última de natureza lógica. Por sua natureza, a opinião é assim, mutante (e por consequência mutável), com temporalidade e historicidade (vem de um passado e vai para um futuro). No entendimento democrático todas as opiniões têm igual valor, dignas, todas elas, de respeito e tolerância, vigorando (em caso de divergências) a opinião da maioria. Então, a opinião pública designaria a vontade da nação e, deste modo, deveria ser a força que rege a ação do Estado (“Vox Populi Vox Dei”). Para que tal ocorra, a livre expressão é pressuposto básico dos regimes democráticos. A maior parte das pessoas se encontra em dois estados mentais: o da dúvida e o da opinião, entre o estado da nesciência (um estado de ignorância professado: nesciente é aquele a quem confessadamente falta ciência de alguma coisa) e o da certeza. Então, como se chega a desenvolver uma opinião, é algo que devemos conhecer.

Valores, esquemas, atitudes e opiniões.

De maneira simplificada, sobre tudo o que lhes afeta direta ou indiretamente, as pessoas desenvolvem seguidamente juízos que podem ser emocionais ou racionais (ou as duas coisas ao mesmo tempo). Estes juízos apresentam-se na forma de crenças, atitudes ou opiniões. As crenças são avaliadoras e contribuem para a formação dos valores podendo apresentar-se na forma de esquemas ou, ainda, de estereótipos. O conjunto de crenças e valores do indivíduo determina as suas atitudes frente a objetos específicos. As atitudes, de certa forma, marcam uma predisposição a crer. A racionalização e verbalização da atitude é a opinião. Ela, a opinião, é a face aparente e observável dos juízos racionais e irracionais. Como os juízos se desenvolvem constantemente, a opinião se move sempre, é mutante e, portanto, mutável. Quando se viabiliza a atuação sobre as crenças, os valores e as atitudes dos indivíduos (o que nem sempre se dá, é bom lembrar), possibilita-se mover-se a opinião. Daí o enorme interesse que o tema tem suscitado (PACHECO e SERPA, 1994).

Como nascem as atitudes, os estereótipos e a opinião individual?   

Todo indivíduo é, diariamente, ativamente impactado pelos fatos e informações pessoais e midiáticas que recebe, denominados fatores determinantes primários. E ainda, de forma latente ou não-manifesta, por uma série de outros fatores que, a partir de sentimentos e reflexões, contribuem para determinar uma visão de mundo, consubstanciada em atitudes, denominados fatores determinantes secundários, que podem ser hereditários (como os biológicos: temperamento, sexo e idade, os psicológicos: motivações e caráter, os sociológicos: escolaridade e extrato social) ou ambientais (como os econômicos: ocupação e renda, os antropológicos: valores, crenças e costumes, os geográficos: clima, ecologia e base racial). Assim, desenvolve-se, ao longo do tempo, o que se chama de atitude, uma predisposição para reagir que é inerente a cada indivíduo (ALLPORT in MURCHISON, 1935), relativamente duradoura, baseada em crenças sobre um objeto que as leva a responder de maneira preferencial (ROKEACH, 1981), ou uma disposição mental para uma ação potencial (MANN, 1973). A racionalização desta atitude (YOUNG, 1963) é expressa verbalmente na forma da opinião (THURSTONE, 1929). No processo social de compartilhamento da opinião com o grupo (quando ela deixa de ser opinião individual para ser opinião pública), o indivíduo, em função de seu interesse ou desinteresse, num mecanismo de atenção seletiva, tria as informações que considera relevantes, classificando-as, simplificando-as e reduzindo-as de forma a facilitar sua assimilação num mecanismo de retenção seletiva. É quando se lança mão dos esquemas e dos estereótipos, utilizados pelos indivíduos no seu processo de formação de opinião. Então, em nível individual, discorda-se ou concorda-se com a informação recebida reforçando-a ou reduzindo-a, e a partir dessa concordância ou discordância se expressa a opinião e se desenvolve um comportamento (PACHECO e SERPA, 1994).

Propagação da opinião pública.

Com o advento da sociedade de massa, nas décadas de 30 e 40, era preciso explicar os mecanismos de comunicação de massa – é quando surge uma teoria que concebe o cidadão como um elemento individual que, atingido por uma mensagem, passa a ser diretamente influenciado por ela: a Teoria Hipodérmica. Tudo se passaria como se a mídia pudesse injetar uma informação nos indivíduos de uma sociedade, e estes, aceitassem as mensagens. Pela Teoria Hipodérmica os efeitos da mensagem se dão quase como manipulação, num esquema de estímulo-resposta, baseado basicamente em propaganda. Mas a partir de 40, com as pesquisas de Lazarsfeld, e posterior publicação de The People’s choise (LAZARSFELD, 1944), surge um modelo que considera o contexto social, uma vez que acredita que as interações sociais entre indivíduos influenciam os efeitos da comunicação alterando o resultado global onde a ação dos meios de comunicação é só uma parte do problema: a teoria do fluxo de comunicação em dois níveis, ou two step flow of communication. Admite-se hoje que o processo se dá em múltiplos níveis (multi-step flow). Uma explicação possível para a propagação da opinião pública é que a mídia irradia um cone de informações para a sociedade, e impactados pelos fatos e mensagens midiáticas, os indivíduos desenvolvem seus processos de formação das opiniões individuais ao se inter-relacionar dentro dos seus grupos de referência e através de vários públicos primários e secundários (ou segmentos de público diversos). Então, não obstante o fato de que a mídia tem um papel importante no que diz respeito à irradiação da mensagem, disseminando informação e, inclusive, pautando temas numa dada comunidade, a formação da opinião vai dar-se através do encadeamento dos vários indivíduos, grupos e públicos em torno de um tema público – a chave estaria no relacionamento (PACHECO e SERPA, 1994). Ora, uma eleição nada mais é que um processo de escolha que passa pela administração da mudança de opinião. Um caso específico, porque especializado (política-eleitoral), do caso geral (opinião pública). O que os norte-americanos chamam de “change opinion”. Daí a provocação do presente título: se é possível interferir no processo de escolha dos eleitores, então metaforicamente estar-se-ia atuando numa “fabricação do voto”. Essa “fabricação do voto” vem sendo nosso objeto de estudo há duas décadas, no Brasil e na América Latina.

Discurso político e espetáculo.

Fala-se muito, hoje, de “despolitização” do discurso eleitoral ou discurso “despolitizado”: não com a intenção de indicar a possibilidade de um discurso não político, uma vez que parece certo que o discurso é sempre político e que as ideias nele contidas é que tendem a expressar maior ou menor consciência social coletiva. Dessa forma, a expressão eleitoral é que pode ser politicamente direcionada de modo a, eventualmente, buscar menos a conscientização e mais a sedução do eleitor, através da empatia pelo candidato (este sempre posicionado politicamente, mesmo que, vez por outra, de forma mascarada, pela estratégia publicitária a ser adotada). A expressão “despolitização”, nesse contexto, destaca uma prática de diluição do velho tradicional discurso político numa nova forma contemporânea de discurso, midiatizada e espetacularizada, que se observa nas eleições contemporâneas. A hipótese básica é que numa sociedade de massa com orientação democrática, isto é, que elege seus governantes através de voto universal, onde todo cidadão decide pelo seu voto, o processo eleitoral tende a ser marcadamente regido pelo discurso despolitizado e sedutor onde parece impor-se a ótica do espetáculo, ou da espetacularização (SERPA, 2011).

A política mudou a forma de busca do voto e da conquista eleitoral: a moda é a sedução e a estratégia vigente é agregar simpatia calorosa e competente à imagem dos políticos: uma tentativa de atribuir atratividade emocional à imagem do candidato, tornando mais “festivo” o pleito eleitoral. O fenômeno não é exclusivamente latino-americano ou brasileiro. A estratégia é relativamente universal e atual, tendo sido iniciada desde os anos 1950, nos EUA, quando e onde se passa a utilizar as técnicas da publicidade, do marketing, da pesquisa motivacional, da mídia, da psicologia social e várias outras disciplinas, na construção e administração do processo eleitoral, como forma de dar-se certa cientificidade e caráter multidisciplinar à política e à eleição. Apenas para citar alguns exemplos: nos EUA, o Nixon derrotado por Kennedy (que já se beneficiara pela nova estratégia) nada tem a ver com o Nixon que ganha as eleições seguintes; na França, o Mitterand repetidamente derrotado no segundo turno distingue-se do Mitterand vencedor de 1981 e de 1988. E no Brasil o “Lulinha paz e amor” que assume a presidência por duas vezes consecutivas e faz sua sucessora – a primeira mulher presidente do Brasil (2010), nem mesmo lembra o “velho sapo barbudo” das derrotas eleitorais anteriores.

A eleição contemporânea sob a ótica da comunicação.

Comunicadores querem atingir um público-alvo (que apresenta uma encomenda social), em função das expectativas do cliente (o Candidato), com certos efeitos (objetivos de comunicação). Tudo em conformidade com o núcleo de interesses e proposições pré-existentes no público-alvo. Mas, se as ações substantivas e de comunicação se destinam ao chamado público-alvo, quem ele é? E o que demanda? Em que momento? E em que intensidade? As respostas a estas e outras questões cruciais, que norteiam a eleição moderna, são o objeto das pesquisas. Como o Candidato é percebido pelo eleitor? O Candidato é um núcleo de interesses e de proposições porque se dispões a fazer certas coisas, a partir de uma visão de mundo (weltanchauung). Sua razão de ser é que gera a candidatura, a partir de uma doutrina que estabelece objetivos: neste contexto é fundamental entender que o objetivo da comunicação é o efeito. Então, há objetivos e políticas a atingir e quem as dita é o Candidato. As políticas geram, necessariamente, a estratégia – o grande conceito geral. Então, fragmenta-se a estratégia em táticas para aplicá-las, em etapas. Constituem-se ações substantivas e ações de comunicação. Mas, a Comunicação não substitui a falta de ações substantivas, não pode fazê-lo. Se, na ação substantiva, falha a campanha eleitoral, é ilusão imaginar que por meio de comunicação se pode iludir, seja quem for, convencendo-o de que se fez o que não se fez. Mais ainda, se as ações substantivas são fracas ou inadequadas, a comunicação, frequentemente, gera efeitos fracos ou inadequados: não por causa de boa ou má comunicação, mas porque a própria ação substantiva básica, de alguma forma, resultou falha ou deficiente.

Indiferença e opinião pública.

Cinquenta anos de pesquisas e sondagens confirmam, de forma quase constrangedora, as primeiras suspeitas de Bryce e Lippmann: a maior parte da população geral é desinteressada e está desinformada sobre a maior parte das matérias que poderiam considerar-se temas públicos (PRICE, 1994). Esse fenômeno, que é universal, é reconhecido na atualidade como “indiferença”. O professor Cid Pacheco, da UFRJ, descreveu-o ao enunciar as três Leis Fundamentais do Processo Eleitoral, quando deu à palavra “lei” um sentido relativo de “alta-frequência”, e não o sentido absoluto das leis da física ou da matemática. A primeira delas é justamente a Lei da Indiferença, versando sobre a normalidade dos quadros eleitorais marcados por pequenas minorias pró e contra, e grandes maiorias indiferentes que, com o avançar da eleição migram para uma das outras posições, diminuindo a indiferença, num processo escalonado que vai da indiferença à indefinição, depois à indecisão, e à simpatia, para finalmente chegar a algum tipo de adesão moderada – o que manda é o centro moderado e não os extremos estridentes. A maioria é silenciosa e somente acessada artificialmente, pelas pesquisas de opinião qualitativas e quantitativas, nos alerta o professor:

“Muniz Sodré nos adverte que o cidadão comum percebe a política como uma esfera metafísica em relação aos seus interesses do cotidiano, tende a não acreditar que ela (a política) possa mudar sua vida. Para Maffesoli, a indiferença é a atitude que torna esse cidadão imune ao discurso persuasivo dos políticos” (PACHECO, 2004, p.92).

Mas, se boa parte do eleitorado inicia-se na indiferença, então ela procrastina ao máximo sua decisão – a Lei da Procrastinação ou do Adiamento Máximo, segundo a qual, o interesse da massa pelo processo eleitoral só se intensifica no período final, próximo à data da eleição. Por fim, a Lei da Efemeridade indica que o eleitorado de massa tende à inconstância, à efemeridade e à infidelização. O grande vitorioso de hoje pode ser o fracassado de amanhã porque a preferência do eleitor médio tende a uma efemeridade crescente: por isso é preciso estar-se atento ao timing da eleição – é preciso crescer no tempo certo (Pacheco, 1994).

Espetacularização das eleições.

A espetacularização democrática da eleição pode ser explicada quando se busca formas de relacionar antigos conceitos sócio-antropológicos de fenômenos como o do carnaval e carnavalização de Bakhtin, do grotesco de Da Matta (1983) e Sodré (1972), da espetacularização de Debord (1997), Schwartzenberg (1977) e Balandier (1982), da propaganda e do entretenimento de Lipovetsky (2004), Sartori (2001), Gabler (1999), Muccieli (1978), Spinalt (s/d), da política e da ciência eleitoral de Pacheco (1998), Bartlet (s/d.) e Domenach (1963), somente para explicitar as questões mais inquietantes. Esses conceitos específicos ocupam um lugar relevante no pensamento contemporâneo, numa “nova perspectiva” que parte de um olhar, não sobre o passado das ideias daqueles autores clássicos, mas agora sob o seu futuro. Mas há diferenças que nos impõe guardar as proporções. A principal diz respeito aos aspectos quantitativos: especificamente, a demografia: demograficamente, o mundo atual guarda pouca similitude significativa com as demografias clássicas, medievais – e até mesmo com as do Século XIX.

Uma visão retrospectiva da evolução do processo.

A carnavalização, da Idade Média, age como uma válvula de escape que permite uma distensão de pressões sociais, através de um processo de inversão de valores que anula temporariamente os mecanismos hierárquicos oficiais. Esta carnavalização já assiste na sua oficialidade a prática de uma “teatrocracia” que regula a atividade social – Shakespeare já enunciara metáfora para fato: “o mundo inteiro é uma cena” – numa prática encenada para revelar os jogos sociais. Balandier parece apoiar a tese: “O Poder em cena”, como adverte o seu prefaciador, Professor Fernando Mourão, descreve os mecanismos em que:

“o político comanda o real através do imaginário, num espetáculo em que as cenas se sucedem, ora refletindo constrangimentos originados no passado ao nível da cultura, ora em decorrência de transformações sociais, cuja inteligibilidade Georges Balandier apreende ao surpreender o nível profundo das relações sociais que dão o sentido da ação, a par das estruturas oficiais, as aparências superficiais, controladas diretamente pelo poder” (Fernando Mourão em BALANDIER, 1982).

Esta mesma tese é velha conhecida da psicologia social e da propaganda, que reconhecem como objetivos, ora a atração do maior número possível de pessoas indiferentes para um interesse efêmero no processo, dentro de um determinado contexto político-eleitoral, ora para obter não somente a participação nesse processo, mas também a transformação e, quiçá a conversão, em maior ou menor prazo das opiniões políticas. Da “teatrocracia” ao espetáculo, Debord, em “A sociedade do espetáculo” afirma o reinado da aparência que define a contemporaneidade e se apresenta numa dimensão alienante que ele chamou de sociedade do espetáculo (em “Sociedade Espetáculo” (1960) e, depois, nos “Comentários sobre a sociedade do espetáculo” (1988), apresenta, em nove capítulos, 221 teses que sintetizam os traços gerais característicos das sociedades regidas pelo espetáculo. Para ele o espetáculo seria o modo de representação no qual as imagens se autonomizam e ganham vida própria, regendo a existência concreta das pessoas, que se tornam simples espectadores de um (§ 2) “pseudomundo à parte, objeto de mera contemplação”. O Espetáculo domina a vida em sociedade, sob “todas as suas formas particulares”: informação ou propaganda, publicidade ou consumo direto de divertimentos. E que tem na mídia a sua vitrina (DEBORD, 1967). Sobre espetáculo, Freire Filho salienta que o empenho para moldar e representar o banal e o cotidiano como espetáculo era ilimitado, e exemplifica de forma espetacular:

Autoridades municipais e nacionais, em conjunto com a imprensa popular, transformaram a tarefa (presumidamente séria) de identificar cadáveres anônimos no necrotério parisiense em concorrido entretenimento – “um teatro gratuito para as massas”, listado em quase todo guia turístico da cidade e frequentado por uma multidão socialmente diversificada de, às vezes, mais de quarenta mil pessoas num único dia. Outras cidade européias tinham seus necrotérios, mas somente em Paris os cadáveres eram exibidos atrás de uma enorme janela de vidro sete dias por semana, do amanhecer ao anoitecer. Vendedores de frutas e do famoso patê de la morgue se aglomeravam do outro lado da calçada do tétrico ponto turístico; quando o local foi fechado ao público, em Março de 1907, 40 mercadores do bairro Notre-Dame assinaram uma petição reclamando, ao conselho municipal, que a medida havia prejudicado seus negócios (Freire Filho, 2005).

Mais que sociedade, o estado espetáculo. Schwartzenberg abre sua obra, “O estado espetáculo”, dividindo-a em três partes: as personagens, o espetáculo, o público. Diz ele, “A política, outrora, eram as ideias. Hoje são as pessoas. Ou melhor, as personagens. Pois cada dirigente parece escolher um emprego e desempenhar um papel. Como num espetáculo”. E a seguir explica:

Hoje em dia, o espetáculo está no poder. Não mais apenas na sociedade, tão enorme foi o avanço deste mal. Hoje, nossas conjecturas já não têm como único objeto as relações do espetáculo e da sociedade em geral, como as que tecia Guy Debord em 1967. Agora é a superestrutura da sociedade, é o próprio Estado que se transforma em empresa teatral, em “Estado espetáculo”. De uma forma sistemática e organizada. Para melhor divertir e iludir o público de cidadãos. Para melhor distrair e desviar. E mais facilmente transformar a esfera política em cena lúdica, em teatro de ilusão (Schwartzenberg, 1977, p. 9).

E com a massificação dos media, a televisão passa a ser o palco preferencial. Gabler, em ‘Vida, o filme’ afirma que:

Se o principal efeito da mídia, no final do século XX, foi ter transformado quase tudo que era noticiado em entretenimento, o efeito secundário e basicamente mais significativo foi forçar quase tudo a se transformar em entretenimento para atrair a atenção da mídia. (GABLER, 1999. P.96).

Em pouco tempo compreende-se que se um empreendimento depende de exposição, então o melhor é transformá-lo em entretenimento. Daí a política adotar rapidamente estratagemas do show business. A vídeo-política, o reconhecimento definitivo da televisão: ela é ao mesmo tempo entretenimento, distração informação e diversão. Sartori cunha a expressão vídeo-política em “Homovidens” (SARTORI, 2001) e demoniza as pesquisas de opinião a serviço da vídeo-política. Desde a década de 50, a publicidade assume a eleição. O marketing passa a ser reconhecido como ferramenta e instrumental básico a serviço da política e dos políticos. Na última década que antecedeu a virada do século, a desmassificação, a globalização, a fragmentação ou granulação levam o processo eleitoral à sua sofisticação maior, até então. Lipovetsky, em capítulo especial de “O império do efêmero” – “A publicidade mostra as suas garras”, descreve a inserção da publicidade na política (LIPOVETSKY, 1989). Identifica que a política mudou de registro, foi em grande parte anexada pela sedução: tudo é feito para dar aos nossos dirigentes uma imagem de marca simpática, calorosa, competente. Um fenômeno de atração emocional… É a festa: cartazes agressivos, solenes, pesadamente simbólicos cederam lugar ao sorriso… Gravatas ao vento… Já não basta dizer a verdade, é preciso dizê-la sem entediar, com imaginação, elegância e humor. A “política espetáculo” mascara os problemas de fundo, substitui os programas de charme da personalidade, entorpece a capacidade de raciocínio e de julgamento em proveito das reações emocionais e dos sentimentos irracionais de atração e empatia. Transforma até os próprios conteúdos da vida política: porque é preciso visar o eleitorado mais amplo, os discursos políticos têm tendência a apagar os aspectos mais controvertidos de seus programas, a procurar uma plataforma indolor, satisfatória para quase todos.

Há muito se sabe que a mídia dificilmente consegue abalar os cidadãos convictos, antes reforça as opiniões do que as altera, tem um papel não negligenciável sobre essa categoria de eleitores que são hesitantes, os indivíduos pouco motivados pela vida política. É nessa vaga que se exerce plenamente o processo de sedução. No decorrer de uma campanha eleitoral operam-se notáveis modificações de intenção de voto entre os indecisos, eleitores irresolutos, aqueles mesmos que determinam o resultado do escrutínio final (CAYROL, 1986). O papel do marketing está destinado a ganhar importância. A sedução, para o autor, contribui ao mesmo tempo para manter, para enraizar de maneira duradoura as instituições democráticas. Adotando uma forma espetacular, o discurso político torna-se menos entediante, menos estranho; aqueles que não se interessam por ele podem encontrar aí certo interesse, ainda que seja não político. Ele só se interessa pelo não político (SCHUARTZAENBERG, 1977). Contrariamente às teses dos acusadores do estado-espetáculo, não há que se traçar uma linha de demarcação rígida entre informação e divertimento. A sedução torna o debate que envolve o todo coletivo menos rebarbativo, mais normal e comum, permite aos cidadãos ao menos escutar. É antes o instrumento de uma vida política democrática de massa do que um ópio do povo. Fazem da instância política uma pura instituição humana liberta de toda transcendência divina, de todo caráter sagrado (Idem). O Estado, tornando expressão da sociedade, deve cada vez mais parecer-se com ela, renunciar aos signos, rituais e aparatos de sua dessemelhança arcaica. Os representantes do poder dão um passo suplementar no caminho secular de supressão da alteridade do estado. O poder é feito da mesma carne que os homens (Idem). A que transformações o espetáculo, a “política espetáculo”, ou a “eleição espetáculo” estariam sujeitos nessa nova fase?

Como demonstrado até aqui, muitos autores dialogam. A prioridade pelo prazer e consequente consagração do entretenimento como busca e preferência centrais do viver contemporâneo, são hoje o eixo definidor das macroculturas populares deste século XXI que ora se inicia. Abre-se um leque de questões e provocações sobre o tema da “eleição-espetáculo” e a midiatização da política na eleição contemporânea, que parecem ganhar vida e força no estudo de casos concretos. Abre-se amplo caminho para a pesquisa empírica (como por exemplo, a nossa pesquisa de origem, Sufrágios espetacularizados). Mas uma coisa é certa: o espetáculo entrou mesmo na cena eleitoral, e veio para ficar. Assim nos parece.

NOTAS

(1)  Marcelo Serpa, D. SC. é consultor em comunicação, opinião pública, pesquisa e ciência eleitoral (psephologia), diretor da ABCOP, RJ – Associação Brasileira dos Consultores Políticos, da POLITICOM, Sudeste – Sociedade Brasileira dos Pesquisadores e Profissionais de Comunicação e Marketing Político e da ALICE – Asociación Latinamericana de Investigadores de Campañas Electorales, professor da ECO-UFRJ – Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de janeiro, onde coordena o NUMARK – Núcleo de Marketing e leciona diversas disciplinas, entre elas, Comunicação Política e Eleitoral – Técnicas, Expressões e Linguagens

(2)  Referência: SERPA, Marcelo. ESPETÁCULO E A FABRICAÇÃO DO VOTO: a relação entre a opinião (pessoal e pública) e o comportamento eleitoral. Rio de Janeiro: NUMARK / ECO / UFRJ, 2012.

Redigido para apresentação no grupo temático “Comunicación y Estudios Socioculturales” do XI Congreso Latinoamericano de Investigadores de la Comunicación – ALAIC / La investigación en comunicación en AméricaLatina: interdisciplina, pensamiento crítico y compromiso social. Montevideo, 2012.

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